sábado, 19 de março de 2011

Goiabada

Naquela tarde eu já havia ido até a Estação, na Venda do João Lopes, de onde eu trouxe, a pedido de Dona Lilia, na garupa do Cavalo Marengo, o mais manso de todos, dois sacos com 50 kg de açúcar cada. Ficou na conta. Anotado numa caderneta de capa preta, sem a necessidade de ser a compra atestada.

“Dá pra começar... No sábado, buscamos mais.” – Sentenciou Dona Lilia, anunciando que teríamos pela frente uma atarefada e divertida semana fabricando Goiabada.

No dia seguinte, saímos nós, os “Colhedores de Goiaba”, em busca da matéria prima para o doce. Nos cavalos em montávamos – se não em todos, na maioria – estavam presos, um de cada lado e unidos entre si, dois latões com capacidade para cinqüenta litros de leite cada, os quais deveriam ser cheios com as frutas a serem colhidas. Algumas légua depois, nos campos do Mato sem Pau, ou nos pastos de Dona Chanica, ou ainda lá pras bandas do Seu Waldemarzinho, era iniciada uma alegre disputa de qual grupo encheria primeiro seus latões com aquelas frutas cheirosa, disputando-as com alguns maribondos e correndo sérios riscos de queda de uma goiabeira espigada.

No final da tarde retornávamos. As goiabas colhidas eram despejadas em grandes balaios de bambu e a noitinha, logo após o jantar, Dona Lilia juntava a “tropa” na cozinha e nos dividia em dois grupos: Os Cortadores, que armados com facas cumpriam as tarefas de limpar as goiabas – cortar a ponta e a bundinha e eliminar os “olhinhos pretos” – e as cortar, passando-as, em seguida, para a Turma da Colher, que, de colher em punho, se encarregava de retirar as sementes das goiabas cortadas, eliminando as sementes ruins e reservando as boas para a produção de geléia. A Turma da Colher era sempre constituída por menos componentes, uma vez que os Cortadores tinham mais atividades e, então, buscava-se manter o equilíbrio reduzindo a força daquela. Em que pese este artifício, era comum a Turma da Colher ficar sem matéria prima e quando isso ocorria todos batiam com a colher na mesa em provocação a lerdeza dos Cortadores.

Haja bagunça! Se Dona Lilia não impusesse ordem na turma, arriscava a cozinha transformar numa praça de guerra, com sementes e polpas de goiaba voando a esmo ou em direção dos adversários.

No dia seguinte as goiabas eram cuidadosamente lavadas, lançadas num tacho grande de cobre e levadas para uma fornalha baixa, acesa em fogo alto de lenha. Tudo isso na “casinha do tanque”, que era uma construção em meia-água, onde eram encontrados três tanques grandes de cimento e a tal fornalha. Ali Sá Eurides (a bem da verdade, não sei se era ela, Geracina, Maria Caetano... ou outra pessoa) com uma comprida colher de pau mexia sem parar as goiabas no tacho, até que se desfizessem numa massa avermelhada e fervente, espirrando para tudo quanto é lado e frequentemente atingindo a doceira, que se protegia como podia.

Nessa fase, cabia a nós, aguçados pelo cheiro intenso de goiabas cozinhando, aguardar o doce ficar no ponto – o que era precisamente decidido por Dona Lilia – e o tacho ser liberado para “ser raspado”.


Estripulias da Prole

Certamente isso tudo não ocorria sempre sem que a prole aprontasse alguma. Lembro-me agora dois casos:


A colherada:

Em certa ocasião, assim que o tacho de doce foi liberado para ser raspado pela galera miúda (raspar o tacho era a melhor atividade no processo de fabricação da goiabada) eu, com a autoridade que me conferia a primogenia, tratei logo de demarcar com o cabo da colher, áreas no tacho com porções mais ou menos equivalentes de doce. A cada um coube uma daquelas áreas para ser usufruída. Ao que me consta – mas sei que há controversas – Maria Aline andou invadindo a minha área... Também ao que me consta – e, uma vez mais, com contestações – foi alertada para a ilegalidade uma, duas, três vezes... Deu no que deu. Na quarta invasão, dei-lhe com o cabo da colher no cocuruto.

Foi uma sangueira dos Diabos!

Eu tentando acalmar Maria Aline – que já corria para me denunciar, ou para ser socorrida... Sei lá! – e com isso evitar os chinelos de mamãe ou o cinto de papai.

Do desfecho exato do acontecido eu não me lembro, mas sei que até hoje Maria Aline tem uma cicatriz (bem pequeninha) no topo da cabeça, que não a deixa esquecer de seu irmão querido.


O assalto às caixetas:


Muitos quilos de açúcar e de goiabas eram consumidos para fabricar muitas e muitas caixetas com goiabada, o suficiente para toda temporada de férias e mais uma grande parte do ano letivo. Em que pese a grande quantidade disponível, havia uma regra: “Sobremesa é uma vez só!” e sem discussões...

Não sei se todas as caixetas são assim, mas as nossas eram de madeiras, muito bem acabadas, e com uma tampa corrediça que deslizava horizontalmente, de modo a abrir e fechar a caixeta. Usualmente, essas caixetas eram guardas assim: Umas ou duas delas no armário da copa e que eram destinadas ao consumo diário, as demais – talvez cerca de vinte, ou mais – na casinha do canto. Essas eram destinadas a repor o de consumo diário e constituir o estoque a ser levado para a cidade, quando as férias terminassem.

Para servir o doce, papai, sempre ele, puxava a tampa da caixeta até cerca da metade da mesma, partia o doce e o distribuía para a turma.

Como eu disse: “Sobremesa uma vez só!”. Um pedaço para cada menino Eventualmente dois: Um para comer no prato com leite (não era sobremesa, eu creio) e outro como efetiva sobremesa. Fazer o que? O jeito foi apelar para o furto.

A casinha do canto, onde os mantimentos em geral eram estocados – inclusive as caixetas de goiabada – era mantida chaveada. O jeito era acessar a casinha do meio e, como todas – a do forno, a do meio e a do canto – não tinham laje, era só escalar a parede e pular de uma casinha para outra. Estando lá dentro, era abrir totalmente a caixeta e cortar o doce do fundo para a cabeceira, exatamente na direção contrária a do que papai seguiria, e depois voltar misturar a caixeta invadida entre as outras, cuidando para que ficasse o mais para fundo possível. Assim, mais tempo se levaria até que a tramóia fosse descoberta.

É claro que um dia descobriu-se... Sei lá o que aconteceu! Não me lembro de ter apanhado por conta disso.

Minha Família

Resgatei essa poesia que escrevi há muito tempo e resolvi a publicar aqui.
É claro que com o passar dos anos muita coisa pode ter mudado e a culpa não é minha!

Deixo de falar sobre mim não atoa,
mas por modéstia, naturalmente.
Seriam tantas coisas boas
e eu prefiro passar discretamente.

Aline, minha irmã mais discreta,
amiga leal, dedicada e carinhosa,
Bela, tão bela que nas raras festas
é sempre, entre todas, a mais formosa.

Humberto, sujeito dos mais sensatos,
comunicativo, com todos se dá bem.
é, certamente, um político inato,
talvez seja esse o futuro que a ele convém.

Mirian, a irmã romantica e sentimental,
da família defensora ferina,
se sonhar lhe é um dom natural
amar os seus é a sua sina.

Naira, pimenta, dinamite, determinação.
Que sua opinião sempre prevaleça.
Nunca a conteste sem absoluta convicção
sob pena de perder a cabeça.

Tito, sistemático - se não tanto
quase isso - sensato e muito seguro.
Não, não será nenhum espanto
se brilhante for o seu futuro.

Tarlei, é de todos o mais gaiato,
menino de imenso coração.
Trata a vida sem muito tato,
ama a todos sem distinção.

Nelson, amigo dos mais discretos,
participa de sua vida sem nela entrar.
Seus anseios, seus sonhos tão secretos
Dificilmente se consegue desvendar.

Walisson, menino bom e esperto,
digo isso não porque é meu afilhadinho,
é de todos, afirmo seguro de que acerto,
o mais inteligente... Saiu ao padrinho!

quarta-feira, 16 de março de 2011

"O Boi Velho" de Simões Lopes

Cuê-pucha!... é bicho mau, o homem!
Conte vancê as maldades que nós fazemos e diga se não é mesmo!... Olhe, nunca me esqueço dum caso que vi e que me ficou cá na lembrança, e ficará té eu morrer... como unheiro em lombo de matungo de mulher.
Foi na estância dos Lagoões, duma gente Silva, uns Silvas mui políticos, sempre metidos em eleições e enredos de qualificações de votantes.
A estância era como aqui e o arroio como a umas dez quadras; lá era o banho da família. Fazia uma ponta, tinha um sarandizal e logo era uma volta forte, como uma meia-lua, onde as areias se amontoavam formando um baixo: o perau era do lado de lá. O mato aí parecia plantado de propósito: era quase que pura guabiroba e pitanga, araçá e guabiju; no tempo, o chão coalhava-se de fruta: era um regalo!
Já vê... o banheiro não era longe, podia-se bem ir lá de a pé, mas a família ia sempre de carretão, puxado a bois, uma junta, mui mansos, governados de regeira por uma das senhoras-donas e tocados com uma rama por qualquer das crianças.
Eram dois pais da paciência, os dois bois. Um se chamava Dourado, era baio; o outro, Cabiúna, era preto, com a orelha do lado de laçar, branca, e uma risca na papada.
Estavam tão mestres naquele piquete, que, quando a família, de manhãzita, depois da jacuba de leite, pegava a aprontar-se, que a criançada pulava para o terreiro ainda mastigando um naco de pão e as crioulas apareciam com as toalhas e por fim as senhoras-donas, quando se gritava pelo carretão, já os bois, havia muito tempo que estavam encostados no cabeçalho, remoendo muito sossegados, esperando que qualquer peão os ajoujasse.
Assim correram os anos, sempre nesse mesmo serviço.
Quando entrava o inverno eles eram soltos para o campo, e ganhavam num rincão mui abrigado, que havia por detrás das casas. Às vezes, um que outro dia de sol mais quente, eles apareciam ali por perto, como indagando se havia calor bastante para a gente banhar-se. E mal que os miúdos davam com eles, saíam a correr e a gritar, numa algazarra de festa para os bichos.
— Olha o Dourado! Olha o Cabiúna! Oôch!... oôch!...
E algum daqueles traquinas sempre desencovava uma espiga de milho, um pedaço de abóbora, que os bois tomavam, arreganhando a beiçola lustrosa de baba, e punham-se a mascar, mui pachorrentos, ali à vista da gurizada risonha.
Pois veja vancê... Com o andar do tempo aquelas crianças se tornaram moças e homens feitos, foram-se casando e tendo família, e como quera, pode-se dizer que houve sempre senhoras-donas e gente miúda para os bois velhos levarem ao banho do arroio, no carretão.
Um dia, no fim do verão, o Dourado amanheceu morto, mui inchado e duro: tinha sido picado de cobra.
Ficou pois solito, o Cabiúna; como era mui companheiro do outro, ali por perto dele andou uns dias pastando, deitando-se, remoendo. Às vezes esticava a cabeça para o morto e soltava um mugido... Cá pra mim o boi velho — uê! tinha caraca grossa nas aspas! — o boi velho berrava de saudades do companheiro e chamava-o, como no outro tempo, para pastarem juntos, para beberem juntos, para juntos puxarem o carretão...
— Que vancê pensa!... os animais se entendem... eles trocam língua!...
Quando o Cabiúna se chegava mui perto do outro e farejava o cheiro mim, os urubus abriam-se, num trotão, lambuzados de sangue podre, às vezes meio engasgados, vomitando pedaços de carniça...
Bichos malditos, estes encarvoados!...
Pois, como ficou solito o Cabiúna, tiveram que ver outra junta para o carretão e o boi velho por ali foi ficando. Porém começou a emagrecer... e tal e qual como uma pessoa penarosa, que gosta de estar sozinha, assim o carreteiro ganhou o mato, quem sabe, de penaroso. também...
Um dia de sol quente ele apareceu no terreiro.
Foi um alvoroto da miuçalha.
— Olha o Cabiúna! O Cabiúna! Oôch! Cabiúna! oôch!...
E vieram à porta as senhoras-donas, já casadas e mães de filhos, e que quando eram crianças tantas vezes foram levadas pelo Cabiúna; vieram os moços, já homens, e todos disseram:
— Olha o Cabiúna! Oôch! Oôch!...
Então, um notou a magreza do boi; outro achou que sim; outro disse que ele não agüentava o primeiro minuano de maio; e conversa vai, conversa vem, o primeiro, que era mui golpeado, achou que era melhor matar-se aquele boi, que tinha caraca grossa nas aspas, que não engordava mais e que iria morrer atolado no fundo dalguma sanga e... lá se ia então um prejuízo certo, no couro perdido...
E já gritaram a um peão, que trouxesse o laço; e veio. A mão no mais o sujeito passou uma volta de meia-cara; o boi cabresteou, como um cachorro...
Pertinho estava o carretão, antigão, já meio desconjuntado, com o cabeçalho no ar, descansando sobre o muchacho.
O peão puxou da faca e dum golpe enterrou-a até o cabo, no sangradouro do boi manso; quando retirou a mão, já veio nela a golfada espumenta do sangue do coração...
Houve um silenciozito em toda aquela gente.
O boi velho sentindo-se ferido, doendo o talho, quem sabe se entendeu que aquilo seria um castigo, algum pregaço de picana, mal dado, por não estar ainda arrumado... — pois vancê creia! —: soprando o sangue em borbotões, já meio roncando na respiração, meio cambaleando o boi velho deu uns passos mais, encostou o corpo ao comprido no cabeçalho do carretão, e meteu a cabeça, certinho, no lugar da canga, entre os dois canzis... e ficou arrumado, esperando que o peão fechasse a brocha e lhe passasse a regeira na orelha branca...
E ajoelhou... e caiu... e morreu...
Os cuscos pegaram a lamber o sangue, por cima dos capins... um alçou a perna e verteu em cima... e enquanto o peão chairava a faca para carnear, um gurizinho, gordote, claro, de cabelos cacheados, que estava comendo uma munhata, chegou-se para o boi morto e meteu-lhe a fatia na boca, batia-lhe na aspa e dizia-lhe na sua língua de trapos:
— Tome, tabiúna! Nó té... Nô fá bila, tabiúna!...
E ria-se o inocente, para os grandes, que estavam por ali, calados, os diabos, cá pra mim, com remorsos por aquela judiaria com o boi velho, que os havia carregado a todos, tantas vezes, para a alegria do banho e das guabirobas, dos araçás, das pitangas, dos guabijus!...
— Veja vancê, que desgraçados; tão ricos... e por um mixe couro do boi velho!

Cuê-pucha!...é mesmo bicho mau, o homem!"

Ah! essa estória lembrou-me do Jaguar!

domingo, 13 de março de 2011

Domingo

O torvo pensa em mim.
Seria cômico, se não fosse fim.
O mingau tá gostoso.
Mamãe entendeu, ou quis entender, assim.

O torvo pensa em mim.
Que bom querido,
Gostou do mingau?
Ah deixa ...

O que é torvo?
Tira no dicionário
Responde, como quem
Me chama de otário.

... Torvo - Carrancudo,
E em um segundo
Segue o dia sisudo
Em seu mundo.

Nelson

sábado, 12 de março de 2011

Eita!

Seu olhar
areia movediça
luar
faísca e atiça
coisas no coração.

Eita!

Vontade de dizer
amo sim, amo não.
- há que se benzer -
sonhos vêm e vão

Foi bom!

sexta-feira, 11 de março de 2011

A Presidenta

Está nossa presidenta, numa quarta-feira cinzenta, ensimesmada, quando lhe anunciam a visita pré-agendada de uma estudante.

- Olá Sra. presidente – a cumprimenta a estudante, assim que entra.

- PRESIDENTA. Por favor. Afinal, sou a primeira mulher presidente do Brasil e quero ser conhecida como a PRESIDENTA.

- Ok. Então eu sou estudanta, uma vez que sou a primeira estudante que visita a primeira presidenta.

- Que seja... Mas o que deseja?

- Quero saber da presidenta o que nos reserva o futuro... Para o Brasil e, por conseqüência para essa estudanta que a entrevista.

- Acaso tenho cara de videnta? Por favor, vá até a sala ao lado e peça a minha ajudanta que providencie com urgência uma videnta para esclarecer para essa presidenta e para essa estudanta o que nos reserva o futuro.

Lá pelas tantas, entra a ajudanta.

- Sra. presidenta, não encontrei nenhuma videnta...

- Essa minha ajudanta é mesmo uma ignoranta – afirma a presidenta.

- Não seria uma anta? – Indaga a estudanta.

- Não... Uma ignoranta! – Ratifica a presidenta – Melhor recorrer aos universitários, ou seja, à estudanta. Por favor (pelo menos tem educação), traga-nos uma videnta.

Tempos depois retorna a estudanta:

- Sra. Presidenta, a ajudanta não é uma ignoranta (Tão pouco uma anta...): Também não encontrei uma videnta... Por outro lado, encontrei uma viajanta.

- E de que me serve uma viajanta?

- Uai! (A estudanta também é mineira, igual à presidenta) Uma viajanta, por óbvio, viaja muito, conversa com muita gente e, certamente, tem informações muito úteis acerca do futuro do país.

- Muito bem pensado, ainda bem que recorri aos universitários, sô!... Que nos tragam a viajanta!

Por fim chega a viajanta que, por aqueles dias, estava lá pras bandas do Nordeste.

- Então, minha cara viajanta, o que o futuro nos reserva nesse Brasil inzoneiro?

- Ôchente (convivência é foda!), sou lá eu alguma videnta? – Indaga perplexa a viajanta – Se uma estudanta não sabe, se uma presidenta não sabe, porque há de saber uma pobre viajanta?

Nesse momento a ajudanta tenta interferir.

- Ei, posso falar?... Posso falar?... Deixa eu falar...

- Fala filhote de asa-branca fidumaégua (Tô falando? Convivência com seu antecessor)!

- Eu trabalhava antes para uma eleganta senhora... Não. Não senhora. Ela não era também uma presidenta, mas outra viajanta que só viajava para o exterior. Ela ia sempre para Índia consultar com um profeta...

- Ah, querem saber? Isso já encheu o saco! (A educação foi pro espaço!). Saiam todos: estudanta, ajudanta, viajanta... Que a presidenta tem mais o que fazer do que se preocupar com o futuro do Brasil!


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Coisas que aprendemos morando em Cuiabá

1 – Se o termômetro marcar 25 graus aproveite para estrear o casaco novo. Pode ser a única oportunidade do ano.

2- O aeroporto internacional de Cuiabá não existe. A gente usa o do vizinho.

3- Se o relógio estiver marcando 18:20 e você estiver na Av. Isaac Povoas, você está com raiva.

4- Se o relógio estiver marcando 18:20, você estiver na Av. Isaac Povoas e seu carro não tiver ar condicionado, você provavelmente se enforcou com o cinto.

5- Se você ainda não bateu em um dos cruzamentos do bairro Boa Esperança, renove seu seguro, você ainda vai bater.

6- A cidade possui 3 Shoppings, em um deles você vai ao cinema, no outro fazer compras e no terceiro só para almoçar.

7- Segundo indícios o baguncinha começou aqui. E é verdade, ele valia só 1 real.

8- Chapada dos Guimarães já foi mar.

9- O filme “Inferno de Dante” foi baseado em nossa política.

10- Mas vale um pequi ruído que dois no pé.

11- Se um dos times grandes vier jogar em nosso estádio, aproveite, essa pode ser a única oportunidade da década.

12- A chuva da manga existe! E a do caju também.

13- Festival de inverno é propaganda enganosa.

14- Existem pessoas que comem a cabeça do boi... E gostam!

15- O Sesc Arsenal fecha muito cedo.

16- Para algumas pessoas a história de Cuiabá se divide em antes e depois da chegada do Mc Donald’s.

7- Shopping 3 Américas era uma galeria, cresceu e agora todo mês é interditado.

18- Exposição Agropecuária é mais importante que o Rock in Rio.

19- ITA Center Park mata mais que a guerra no Iraque

20- "Frutos da Terra" é o melhor picolé do mundo.

21- Se for ao bairro "Parque Cuiabá" faça uma revisão no carro, encha o tanque e boa viagem.

22- Pacu, pirarucu e baiacu não tem nada a ver Cuscus.

23- Pelo amor de Deus !!! Jacaré na rua é coisa de paulista desinformado.

24- Escaldado de madrugada no Choppão é a melhor maneira de curar a bebedeira.

25- No final do arco-íris existe uma vaga na praça popular.

26- O posto Gil é uma lenda.

27- Se chover fique em casa.

28- O nosso bairro Leblon deve ter mais concentração de drogas que o Rio de Janeiro inteiro.

29- A Ponte Nova é velha.

30- A invenção do ar condicionado é tão importante quanto a invenção da escrita.

31- Cuiabá tem 4 estações do ano: verão, abafado, mormaço e quentura.

32- Em Cuiabá urubu voa com uma asa e se abana com a outra.

33- Vento? Fecha as janelas que é chuva.

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segunda-feira, 7 de março de 2011

Dinha - Aniversário 2011

Pois é Ferreirada.

Como divulgado através de e-mail, Maria Aline, nossa querida Dinha, completou 60 anos (como ela disse: Arredondou idade) no dia 05/03/11.

À noite liguei para ela para completar o parabens virtual e fiquei sabendo que a Kitty a presenteou com uma festa surpresa, da qual participaram importantes personalidades, como: Tia Chiquinha, Tia Lili, Tia Cidinha, algumas primas, entre outras... Muito show!

Pedi, então, para a Kitty que me enviasse as fotos da festa e as publiquei no Blog. Para acessar é só clicar em "Ferreirada por aí (fotos)", em Links, na coluna direita do blog, selecionar a aba "minhas fotos", e então clicar no album - Aniversario Dinha - 2011.

Ou mais simples, cliquem abaixo:

https://picasaweb.google.com/maferreira90/FotosAniversarioDinha?authkey=Gv1sRgCKHDzYKDgeGJmwE#

Vai aqui o meu beijo para a Kitty... Muito legal a inciativa dela!

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terça-feira, 1 de março de 2011

+ Alguns Versinhos

Intento


Se nada me acontecer, até o fim dessa tarde ensolarada
escrevo para você, do fundo de mim, uns versos bem bonitos.
Mas sabe como é: Há tanta curva e poeira na estrada
que pode muito bem ficar o dito pelo não dito.


Culpa

Não houvesse estrelas, tão pouco a lua
talvez não houvesse força anímica
para aquele beijo, tão pouco seria sua
aquela poesia tão absurdamente lírica.


Fugaz

A espera o quedou frágil, cristal em gume.
Houvesse tinta, talvez uma deseperada aquarela...
Mas não, contentou-se com o brilho de um vaga-lume
e assim, num instante, a vida lhe pareceu tão bela.


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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Um alarme falso & Um alerta real

A idade chega e o corpo às vezes, muitas vezes, não mais reage como o cérebro comanda. Acreditando “ainda poder”, alguns a si impõem um ritmo de trabalho que, por mais que queira, o corpo – todo o corpo, ossos, órgãos, músculos e tecidos – não pode suportar.


Pode ser isso o que ocorreu comigo: Num sábado, após uma quinta e sexta-feira em que eu tinha me deslocado de Mato Grosso para São Paulo, capital e interior, e trabalhado num afã de mundo acabando, sem dormir e sem me alimentar direito, fui internado em Nova Olímpia, por conta de uma pneumonia.  Três dias depois estava liberado, mas uma tosse persistente e uma febrezinha incômoda continuou a me acompanhar por vários dias.

Uma nova radiografia e uma mancha no pulmão direito apontando para a possibilidade de uma “formação tumoral”.

É claro que preocupou!

De Nova Olímpia para Belo Horizonte e alguns scaners, radiografias e exames diversos após, o bom – ou, dos males o menor – diagnóstico: “Apenas” um enfisema no pulmão direito, comprometendo parte de minha capacidade aeróbica, sem maiores conseqüências.

Figurativamente a médica me explicou: “Imagine o pulmão como sendo um cacho de uvas. As uvas são os alvéolos. Agora imagine que algumas das uvas deste cacho murcharam... Isto se constitui no enfisema”. Não tem cura, porém cessada a causa – no meu caso o cigarro – cessa o progresso do mal. As conseqüências mais graves são a menor capacidade de troca de oxigênio com o sangue e uma maior susceptibilidade a infecções respiratórias, como a pneumonia, por exemplo.

O alarme, graças a Deus, foi falso, mas fica aqui registrado um alerta real para os Ferreira fumantes:  Não vale a pena!

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

João Bica

(Amanhecer no Rio Guaporé - RO - Por Maferreira)

Deitado numa rede encardida e um tanto desfeita, estendida sob a sombra rala de um Pequiá, em frente a um precário rancho de madeira, João Bica suava entorpecido pelo mormaço úmido e denso da floresta espessa. A sua volta, cerca de meia dúzia de anus agourentos bicavam larvas incautas que brotavam de alimentos podres espalhados ao redor.

Já havia decorrido mais de mês desde aquela tarde em que encontrara sua casa vazia, ao voltar exaurido e descorçoado, após mourejar sem nenhum resultado nas seringueiras da Trilha Velha, lá para os lados do Ribeirão do Capitão: Naara havia partido.

Naara, uma mameluca de Guaicuru que com ele vivia desde o dia em que apeou de seu cavalo em frente à Venda do João Gordo, o pai da mestiça, e entregou as elas as rédeas do animal para que fosse amarrado sob a sombra de uma aroeira frondosa próxima dali. Naquele instante se viu refletido no negrume dos olhos amendoados da chinoca e soube que a levaria consigo floresta adentro. Ela o seguiu sem lamento e nem riso, apenas se deixou ser levada por aquele homem tosco, de pele avermelhada, poucas palavras e nenhuma leitura. Não queria para si o destino da Índia, sua mãe, que por desgosto definhou até a morte, sufocada naquela vendinha enterrada na borda da mata, onde apenas raros aventureiros ajagunçados mostravam-se. Então, se acomodou, primeiro ao lado dele numa esteira desenrolada no chão de um quartinho nos fundos da venda e depois na garupa do baio rumo às trilhas das seringueiras, embrenhando-se floresta adentro.

Não logrou escapar da sina de sua mãe. Tempos depois a tristeza a alcançou numa cabana na margem direita do Guaporé e, então, uma vez mais, se deixou ser levada pela correnteza, desta feita de um rio. João Bica sequer fez menção de ir ao seu encalço. Embora ajuizasse ter ela se deixado levar pelas águas, uma vez que, embora uma de suas canoas houvesse sido desamarrada, todos os remos continuavam, como ainda hoje estão, estendidos sobre o jirau. Sem remos ela não iria longe, não seria difícil alcança-la, mas não valia a pena. Nada valia a pena: O látex, já de muito minguado, secara de vez nas veias das seringueiras; a malária que o acometera há cerca de dois anos, o reduzira a um homem desvalido, a um apoucado seringueiro com cada vez menos ânimo para lida; as crias não vingaram, cinco ou seis, não mais se dava conta, escoaram coxas abaixo de Naara sem que lhe arrancasse um só arrulho; agora ele retribuiria, deixando que também ela escoasse rio abaixo sem que um só gemido fosse ouvido de seus lábios.

Desde então, João bica jogou-se naquela rede e ali se deixou ficar.

Morrer é tão difícil! Ainda que pouco reste para morrer, a vida insiste em manter-se viva. Agarra-se a tênues fios, frágeis raízes que pendem sobre o penhasco que se abre para o nada e ali se sustenta por mais alguns segundos, a cada instante morrendo mais um pouco, até que nada reste... Mais fácil é matar do que se deixar morrer!

João Bica delirava, dia e noite se misturavam, realidade e delírios se fundiam e nada mais lhe fazia sentido. Hora Naara umedecia seus lábios secos com uma paina molhada, deitando-se, em seguida, ao seu lado na rede coberta com flores; hora era uma parda esturrando a poucos metros da tapera; outras vezes uma chuva torrencial desabava sobre sua febre; ainda outras se banhavam, nus, ele e Naara, numa cachoeira do Cabixi; e ele que nunca temeu a sombra densa da floresta, nem tão pouco os bichos que nela habitavam, agora, entre sonhos e delírios, horrorizava-se ante a iminência de ter seus ossos triturados pelas presas de alguma onça faminta.

Naquela tarde, subitamente sentiu-se bem. Apeou da rede e nem se deu conta da quantidade de moscas que esvoaçaram desde as feridas de sua pele, olhou em direção ao Guaporé, cujas águas escoavam tranqüilas banhadas pelas cores das luzes de mais um estupendo por de sol e, quase que com a agilidade daquele gaúcho aventureiro que há mais de vinte anos desembocara naquelas terras inóspitas, sedento de aventuras, caminhou até sua margem. Estava praticamente nu. O corpo descarnado, a pele coberta por chagas, os lábios secos e rachados e, inesperadamente, feliz. No meio do rio, numa canoa rasa, de pé, envolta pela luz ofuscante do sol poente, estava ela... Braços estendidos para ele.

Arrancou os poucos trapos imundos que ainda o cobriam, trazendo junto alguns pedaços da pele putrefata e com um grunhido de um porco selvagem ferido lançou-se nas águas do rio...

A primeira piranha chegou atraída pelo odor das antigas escaras, ou talvez pela cor viva das feridas recém originadas, de quando arrancou pedaços da pele aderida aos andrajos que o cobriam. Veio ágil e leve, como uma improvável borboleta aquática e o mordiscou... A dor foi insignificante, desprezível mesmo, como uma leve descarga elétrica, mas o suficiente para incitá-lo a ir mais rápido rumo ao barco que o acolheria. Um fino filete de sangue e mais um grupo ligeiro daqueles peixinhos coloridos. Agora sim: Beliscões sucedem-se e dentes afiados picotavam seu corpo descarnado. Mais peixes chegam alvoroçados, uma água densa e avermelhada, borbulha, como em ebulição, em torno de João Bica que ainda se debate... Não por muito tempo. Em breve, com macabros movimentos advindos da força daquelas bocas esfaimadas, seu flutuará inerte levado pela correnteza do inofensivo Guaporé.



sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Abelhas II

 O que nos relatou o Tarlei me fez lembrar de outro acontecimento envolvendo ataque de terríveis Abelhas. Foi há muito tempo, lá em Paulo Freitas e assim não me lembro com precisão dos detalhes, nem tão pouco de todos os envolvidos. Desta forma vou postar como me ocorrer, sem maiores preocupações com a verdade.

Quem estava lá pode contribuir comentando ou completando o post, ok?



Férias de Dezembro, não havia outra escolha: Todos para a Fazenda! Naquela época as aulas só eram retomadas em março, assim, eram três meses de pura Alegria.

É provável que os Ferreira da nova geração (sobrinhos em geral) desconheçam o “nosso mundo” de então. A mítica Fazenda dos Coelhos era apenas parte de um extenso território que a nós pertencia – se não de direito, de fato – composto pela Fazenda do Padrinho Valdemar; toda a serra (e não apenas a área que constava da escritura da Fazenda dos Coelhos); as várzeas do João Campos, assim como vasta extensão de outras várzeas do Rio Capivari; os campos de Dona Chanica; a mata proibida do Seu Waldemarzinho... E muito mais. Era desembarcar em Paulo Freitas do trem da RMV vindo de Lavras e transpor um portal para um reino que nos transformava.

A casa sede da Fazenda dos Coelhos, neste período, usualmente ficava “lotada”, com todos seus seis quartos, mais o “quartinho”, que ficava na parte inferior da casa, ocupados por primos (as), amigos (as) e afins – como gosta de usar o Tarlei – que se encarregavam de tornar os dias curtos para tantas atividades. Uma das atividades preferidas era as longas cavalgadas pelos domínios do Reino. Um bando montado rumo às “aventuras nossas de cada dia”. Éramos tantos que frequentemente os cavalos e o arreamentos, nossos e do Padrinho Waldemar, eram insuficientes, sendo necessário recorrer ao empréstimo com algum vizinho.

Naquele dia não tínhamos objetivo muitos ousados. Limitar-nos-íamos (bonito isso, não?) a escalar a serra, subindo o Córrego do Bambu, desde a casa do José Caetano, até o seu primeiro patamar (ou banco, como o denominávamos). Por alguma razão da qual não me lembro, fomos a cavalo até o pé da serra e junto ao córrego, já dentro de uma restinga ciliar, apeamos, amarramos os cavalos sob a sombra fresca, afrouxamos as barrigueiras, apanhamos os bornais lotados com as matulas e iniciamos a escalada.

Éramos um grupo considerável. Creio que dos irmãos, do Milton Junior para cima estávamos todos; as primas por parte da Tia Chiquinha e Padrinho Waldemar – o Darci nunca, ou quase nunca, fazia parte do grupo; creio que o Tio Tarlei também estava e, ainda, a Vera Lúcia filha da Tia Dica, mas não tenho certeza disto, e também o cachorro do Padrinho Waldemar (não me lembro o nome dele. Não sei se fidalgo, plutão...).

Quando atingimos o banco, tratamos de encontrar uma árvore sombrosa, o que se deu junto a um penhasco pequeno de onde se descortinava uma bela vista. Ali ancoramos e iniciamos, entre prosas e risos, a dura tarefa de consumir a merenda. Daí a pouco um grito, alguém se levantou esbaforido, dando de braços como um maluco... Logo um outro, um zumbido, em instantes um enxame de abelhas caiu sobre nós. Pânico, correria, ferroadas alucinantes, gritos, choro... “Deita todo mundo e não se mexam!” – alguém, sei lá quem, poderia até ter sido eu, ordenou. Que nada! As abelhas caiam em cima e logo estávamos todo de pé, no debatendo aos berros. “Para o pocinho!”... E nos amontoamos num poço menor que uma tina, jogando água para cima, com o intuito de afugentar as melíferas assassinas. “Esfreguem alecrim! “... E assim fomos descendo a serra, na correria e sob risco de uma queda, até que em determinado ponto as Apis Melíferas nos abandonaram. Não me lembro em que ponto e nem quanto tempo ficamos sob ataque. Sei que foi um longo tempo.

Milton, Ana Lúcia e o cão ficaram em estado deplorável: O Cachorro, um vira-lata com sangue de fila, ficou deformado. Uma cabeça enorme, ainda assim com um focinho horrorosamente desproporcional. Ana Lúcia com uma cara de lua cheia, sem olhos, com náuseas e vômito. Milton não muito diferente disto, também fortemente intoxicado. Os demais, inchaços generalizados e inúmeros ferrões a serem retirados, o que era feito por um em outro, enquanto era combinada a aventura do dia seguinte.

Felicidade pouca era bobagem!!!


Coisa medonha... É mesmo prá pegar nojo de Abelha, não é Tarlei?

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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Marcus Aurelius






Este meu chará era F... !



Caesar Marcus Aurelius Antoninus Augustus, conhecido como Marco Aurélio (26 de abril de 121 – 17 março 180), foi imperador romano desde 161até sua morte. Nascido Marco Ânio Catílio Severo (Marcus Annius Catilius Severus), tomou o nome de Marco Ânio Vero (Marcus Annius Verus) pelo casamento. Ao ser designado imperador, mudou o nome para Marco Aurélio Antonino, acrescentando-lhe os títulos de imperador, césar e augusto. Aurelius significa "dourado", e a referência a Antoninus deve-se ao fato de ter sido adoptado pelo imperador Antonino Pio.


Seu reinado foi marcado por guerras na parte oriental do Império Romano contra os Partas, e na fronteira norte, contra os Germanos. Foi o último dos cinco bons imperadores, e é lembrado como um governante bem-sucedido e culto; dedicou-se à filosofia, especialmente à corrente filosófica do estoicismo, e escreveu uma obra que até hoje é lida, Meditações.

Marco Aurélio escreveu os doze livros das Meditações em grego, como uma fonte para sua própria orientação e para se melhorar como pessoa. É possível que grandes partes da obra tenham sido escritas em Sírmio, onde ele passou muito tempo planejando campanhas militares entre os anos de 170 a 180. Sabe-se que partes dela foram escritas enquanto ele estava acampado em Aquincum, na Papônia, devido às notas na própria obra que indicam que o segundo livro foi escrito durante suas campanhas contra os Quados, no rio Granova (atual Heron), e o terceiro livro foi escrito em Carnuto. Não se sabe ao certo se ele teve a intenção de publicar seus escritos, e o título "Meditações" é apenas o mais célebre dentre diversos outros comumente designados à coleção. A obra segue o formato de citações, que variam em tamanho, de uma frase a parágrafos longos.

Suas idéias estóicas frequentemente giram em torno da negação de uma emoção, de uma habilidade, que, segundo o autor, libertarão o homem das dores e dos prazeres do mundo material. A única maneira de um homem ser atingido pelos outros seria se ele permitisse que sua reação tomasse conta de si. Marco Aurélio não mostra qualquer fé religiosa em particular nos seus escritos, mas parecia acreditar que algum tipo de força lógica e benevolente organizasse o universo de tal maneira que até mesmo os acontecimentos "ruins" ocorressem para o bem do todo.



Filosofia de Marcus Aurelius:




“O homem comum é exigente com os outros. O homem superior é exigente consigo mesmo”.

“A nossa vida é aquilo que os nossos pensamentos fizerem dela”.

“O melhor modo de vingar-se de um inimigo, é não se assemelhar a ele”.

“Nada de desgosto, nem de desânimo; se acabas de fracassar, recomeça”

"Muitas vezes erra não apenas quem faz, mas também quem deixa de fazer alguma coisa".

"Antes o reprovamento por um gênio do que um louvor de um idiota".

"Quanto não ganha em tranqüilidade quem não se preocupa com o que o vizinho diz, faz ou pensa, mas apenas com os seus próprios atos".

"Se te ocorrer, de manhã, de acordares com preguiça e indolência, lembra-te deste pensamento: 'Levanto-me para retomar a minha obra de homem.'".

"Pratica cada um dos teus atos como se fosse o último da tua vida".

"Mantenha-se simples, bom, puro, sério, livre de afetação, amigo da justiça, temente aos deuses, gentil, apaixonado, vigoroso em todas as suas atitudes. Lute para viver como a filosofia gostaria que vivesse. Reverencie os deuses e ajude os homens. A vida é curta".

"A experiência é um troféu composto por todas as armas que nos feriram".

"Mais penosas são as conseqüências da ira do que as suas causas".

"Mudar de opinião e seguir quem te corrige é também o comportamento do homem livre".

"A arte de viver é mais parecida com a luta do que com a dança, na medida em que está pronta para enfrentar tanto o inesperado como o imprevisto e não está preparada para cair".

"A maior parte das coisas que dizemos e fazemos não é necessária; quem as eliminar da própria vida será mais tranqüilo e sereno".

"Não se é menos culpado não fazendo o que se deve fazer do que fazendo o que não se deve fazer".

"Não desprezes a morte; dá-lhe boa acolhida, como a uma das coisas que a Natureza quer".

"Quem peca, contra si peca; quem comete injustiça, a si agrava, porque a si mesmo perverte".

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Oráculo

A foto, tão linda,me fez lembrar do que escrevi no famigerado "Avesso". Depois que eles se foram, não escrevi mais. Aí está um pouco dessa auto ficção:
"Feliz se sentira naquela noite, noite de lua cheia e céu estrelado; noite que se contorcia de tanta beleza e era beleza tanta que a gente da casa falava baixo, macio; falava com a sabedoria que vinha das entranhas da terra;do calor subterrâneo das raízes das árvores; do mistério sombreante da serra, agora adormecida. Naquela noite todos saíram de casa, a lua convidara. O luar se insinuava pelas janelas, pelos traçados enlourados, encantantes desenhados nas tábuas do piso; a lua, naquela noite, os queria cúmplices.E assim foram todos passear na estrada, beirar a serra.
Na frente, puxando a tropa, iam mãe e pai enlaçados naquele abraço eterno. De vez e outra, olhavam para trás, cuidavam para que nenhuma de suas ovelhas se desgarrasse.E havia em seus olhares orgulho, prazer enorme de tantos filhos e, quando o menorzinho se mostrou cansado, pai o colocou em seus ombros fazendo com que a criança se agigantasse na continuidade daquele que era para todos herói, homem com H. Logo em seguida, vinham as meninas, de braços dados, em risinhos secretos, já confidenciando com a lua esperanças de amores futuros...mulherzinhas.
Maria buscava a companhia do primogênito.Esse estudava na capital,porém estava de férias na fazenda.Trazia os cabelos longos e a barba por fazer, os olhos fundos, boêmios e uma magreza mítica; trazia também, e era por que Maria ardia, um saber às avessas, um conhecimento de si, um lirismo convulso traduzido em poemas. Maria tomou-lhe a mão e foi gentilmente, sorrateiramente, forçando-o a distanciar dos demais. E assim envolvidos pelos cicios, pelo cintilar dos vaga-lumes, pelo luar..."Mas não foge o covarde, apenas se submete. Deixa-se ser engolido antes mascado como chiclete,... Até os intestinos, onde se faz numa excrescência... Surpreende o frio do amanhecer, do lusco-fusco. Covarde. Da cama até a porta rasteja o molusco”. Maria não decifrava as palavras, mas pressentia o significado, prenunciava a epifania, comungava a substância.Maria, em sobressaltos, sonhava...Um dia, falaria assim, revelar-se-ia assim...Era bonito, doía fundo...
E por último, vindo em grande algazarra, a criançada que corria, levantava poeira, aprisionava vaga-lumes, Bené os liderava
Ao pé da montanha, oráculo sombrio, acenderam uma fogueira e rodearam-na como se fossem uma primitiva tribo.Pai e mãe relembraram o passado; as mocinhas, curiosas, ouviram a história do primeiro encontro; inibidas, do primeiro beijo.O primogênito se isolou buscando rimas nas estrelas.Bené desenhava na escuridão, o tição volvia criando imagens fugazes. O endiabrado corria atrás dos pequenos que viam suas sombras se confundirem com as da criação que indiferente pastava ao redor. Maria ali estava sendo duas.Maria era assim: havia uma que existia e outra que se ausentava para sentir.
Então pai, já preocupado com o desassossego dos pequenos, abandonou românticas histórias e começou a contar assombrados causos.E começou assim, devagarinho como quem não quer nada, desconsiderando a esperada introdução: era uma vez.O que queria pai era que as crianças fossem laçadas pela saga, não pelo o de costume:
- E era assim Papai Américo, um homem diferente, diferente para os tempos de agora, não para os de outrora - disse olhando as chamas como se delas lhe viessem as lembranças. - Naquele tempo havia gente assim, gente mancomunada com os que já foram, com os que são almas de iluminação ou com os que são almas penadas, tratadas de assombração.
E os pequenos como que hipnotizados, vieram buscando assento, aconchego. A noite enluarada exigia presença de estranhas entidades e as crianças sentem primeiro sua proximidade.
-Papai Américo tinha tutano, mando nos de outras esferas. Tanta era sua força que nos idos anos do outro século, benzeu seu próprio filho picado de cobra, cobra venenosa, uma cascavel.Taí sua mãe pra provar que a cria se salvou, a cria era o pai dela. Conta-se também que, um dia Papai Américo se desentendeu com um comprador de gado. Mau negócio, levou manta. Acabrunhado, fez uma reza brava e quando o comprador ia levar o gado... Na frente da porteira da saída, Papai Américo deu uns pulinhos xistosos fazendo o sinal da cruz. Ali, bem no lugar da mandinga e, quem não pode com mandinga, não carrega patuá; o gado vendido que estava sendo tocado, refugou e voltou em desvario pra trás, em debandadas. As reses fugiam como o diabo da cruz. Os boiadeiros assustados, amaldiçoando a feitiçaria, temendo homem de tão medonho compadrio, desfez a trapaça e pagou o preço justo .
O pai entusiasmado por ser dele toda a atenção continuou : - E lembra, Meire - esse não era o nome da mãe,mas da amante - aquela história da assombração que roubava mantimento?
...!!!
Os pequenos, agora sentados em volta da fogueira, iluminados pela luz difusa da lua e do fogo, ouviam atentos, temerosos de tão fantástico parentesco.
Quando o tempo se fez frio, quando a conversa foi se tornando espaçada, quando os olhos se fizeram pesados, resolveram então voltar para o conforto do casarão.
Pai com desvelo, encaminhou a prole de volta.No meio do caminho foram surpreendidos pelos filhos de Passarinho. Vinham vindo trôpegos, desconjuntados, balbuciando desconexos monossílabos, exalando o espanto.Chico Bola na sua retardice de olhos medonhamente arregalados, mal aflorava os lábios.Maria estancou, não queria saber, doía-lhe os ossos, a vista turvava, ante-sentia a tragédia.Ouvindo o mal-contado puderam apurar: Sá Orides fazia sabão preto. Não era noite de lua cheia? Aproveitava a claridade. Os filhos brincando no terreiro, felizinhos eles estavam. O tacho medonho de cobre no centro, dentro o sabão fervendo, fora correria de menino. O descuido, um esbarrão na alça e as lavas negras, borbulhantes, derramando por sobre o corpinho franzino, miúdo, tão- há- pouco- alegrinho do menino de cabelos louros e compridos, promessa...ACUDA PATRÃO! E no silêncio curto do espanto, Maria ouviu a lâmina sendo afiada, sentiu o fio da foice riscar sua pele e veio então o arrepio.
Maria, como uma sonâmbula, continuou a descer a estrada; através dos olhos embaçados - a lágrima não escorria, estava ali presa e haveria de estar ali sem derramar, sem alívio - viu pai, os irmãos mais velhos, mãe, desequilibrada nos pés, tomarem o trilho da casa de Passarinho. Eles, outros, ainda pequenos pra tamanha "precuada", continuaram a marcha.O luar bestificado os acompanhou.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Quitanda



(Foto retirada da internet - Não se trata da "Casinha do Forno", da Fazenda dos Coelhos, em Paulo Freitas)





As primeiras a sair eram as pamonhas... Não as pamonhas como as que hoje se conhece, talvez até fossem broas de milho, contudo nós as conhecíamos como pamonhas, então, pamonhas são. Mas antes disto um delicioso ritual se processava.

O termo “quitanda” tem origem africana, quibumbo-kitanda, que significa mercado de doces, doces de tabuleiro ou qualquer doce de forno.

Lá em Paulo Freitas, na Fazenda dos Coelhos, as delícias ganhavam vida na “casinha do forno”, a primeira de três “casinhas” em meia água, geminadas, construídas no amplo terreiro cimentado, no fundo da qual se erguia um majestoso forno em alvenaria, tudo construído segundo projeto e administração do empreendedor Milton Ferreira.

A primeira coisa a se fazer era aquecer o forno. A técnica era simples: Escolher lenha de boa qualidade e seca (A melhor é a “lenha do mato” – afiançava Sá Eurides); arranjar a lenha, os gravetos e a palha de milho no forno; atear o fogo – com a porta e escotilha abertas para que se formem as labaredas; fechar e vedar porta e escotilha, para formar um braseiro e quando a temperatura estiver ideal varrer o forno com vassouras de alecrim-do-campo (até hoje sinto o cheiro da essência exalada pelo alecrim aquecido!). Para se determinar a temperatura ideal do forno usa-se a palha do milho, que se retorce sob o calor, assumindo uma cor castanho-escuro que é indicativa da temperatura adequada ou, mais fácil, a experiência de uma boa quitandeira, que lá em casa era a Sá Eurides. Melhor não havia nas redondezas!

Enquanto o forno aquecia, ou até mesmo antes de aceso, ocorria a preparação das “massas”. Tudo, ou quase tudo, nas “gamelas de pé” ou “simples”. Lá em casa havia uma “gamela de pés” que foi fabricada - não sei por quem – em peroba rosa e que era constituída por duas “cubas” grandes, escavadas em um único tronco, a estrutura de suporte e os pés; e várias “gamelas simples”. Nesta empreitada de preparar as massas, D. Lilia não apenas supervisionava as atividades, mas também participava ativamente da lida, literalmente “metendo a mão na massa”.

A nós crianças cabia meter os dedos sujos naquelas massas cremosas, chupar, meter de novo os dedos, e ser enxotados por Sá Eurides.

Depois era enrolar as pamonhas em folhas de bananeira, enrolar os biscoitos de polvilho e os biscoitões, torcer as bolachas, trançar as roscas e tudo mais que D. Lilia julgasse adequado. Distribuir simetricamente nos tabuleiros de alumínio e levar ao forno para assar, segundo ordem estabelecida pela quitandeira, Sá Eurides, com a anuência de D. Lilia. Certamente essa ordem foi estabelecida em conformidade com a temperatura do forno, que diminuía com o decorrer do tempo. Assim, como já foi dito, primeiro eram as pamonhas, depois as broas de milho, os biscoitos pesados (biscoitões), os biscoito de trigo, os pães de queijo, as bolachas, as roscas e, por último, os biscoitinhos, ou biscoitos de polvilho. No fim da tarde, usualmente, entrava um lombo ou pernil de porco e que só sairia no dia seguinte, com um sabor indescritível (como diria o Thiago: de comer orando! – Ou seria o Lucas?).

Nas férias de julho, bastavam duas fornadas. Eram suficientes para abastecer a prole esfaimada durante o mês e ainda levar uma boa quantidade para a cidade. Nas férias de dezembro, eram requeridas quatro ou cinco fornadas, dependendo da quantidade de amigos, parentes e afins que vinham passar férias na lendária Fazenda dos Coelhos.

Tudo isso foi escrito apenas para dizer da saudade daqueles cheiros, daqueles sabores e daquela alegria que, pelo menos para mim, é inigualável.