quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Quintana: O berço e o Terremoto



 (Mário Quintana)


Os versos, em geral, são versos de embalar, como eu às vezes os tenho feito, não sei se por simples complacência… ou pura piedade.
 
Contudo, os verdadeiros versos não são para embalar – mas para abalar.

Mesmo a mais simples canção, quando a canta um Camela Lorca, desperta-te a alma para um mundo de espanto.

***

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Pablo Neruda: Poema 20

(Pablo Neruda)

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: “A noite está estrelada,
e piscam, azuis, os astros, ao longe”.

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu a quis, e às vezes ela também me quis.

Nas noites como esta,  tive-a entre meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela me desejou, e às vezes eu também a desejava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.

Que importa que o meu amor não pudesse guardá-la?
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
Minha alma não se conforma por havê-la perdido.

Como que para aproximá-la, meu olhar a procura.
O meu coração a procura, e ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós, os de então, já não somos os mesmos.

Já não a desejo, é verdade, mas como a desejei…
Minha voz buscava o vento para tocar seu ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos.

Já não a desejo, é verdade, mas talvez a deseje…
É tão curto o amor, e tão longo o esquecimento…

Porque em noites como esta tive-a entre meus braços,
minha alma não se conforma por tê-la perdido.

Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que eu lhe escrevo.


***

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Natal em família

Calor. Muito calor. E então ebulição. E então convecção. Essa é a sedenta atmosfera natalina nas mitológicas Lavras, por serem muitas réplicas; ou Sarval, como diriam certos espíritos brincalhões - latitude 21° 14' 43 sul, longitude 44° 59' 59 oeste, e altitude de 919 metros; nossa própria Dublin, nossa própria Davos-Platz, nossa própria São Petersburgo; nossa própria Jerusalém... O mesmo sangue que se espalha e que se dissipa e que povoa a Terra; sangue de um mesmo povo que avança festivo pelas distantes bordas da nossa esteira leitosa. Como a voz sóbria, sábia e rigorosa em seu amor de nossos memoriosos patriarcas; humanos igualmente; que sempre confiaram na providência, e que sempre zelaram pelos seus, e que sempre rezaram; que outrora (num tempo que uno é sempre o mesmo e que cíclico é sempre presente – como as coisas que embora ainda não tenham sido, por virem a ser um dia inexoravelmente, já o são agora mesmo) diziam coisas sobre o mundo que então não sabíamos e que hoje servirão de bússola e de guia aos expatriados desse mundão-vasto--véio-e-sem-porteira-de-Nosso-Senhor. São lembranças e retratos esmaecidos espalhados pelas paredes e pelas porteiras decrépitas e pelos cochos em ruínas; são repetições do mesmo sentimento tomando o espaço dos armários, das sapateiras e das antigas penteadeiras, agora tomadas de mofo e de cupim. São lindas crianças saudáveis e lacrimosas que despertam a promessa da continuidade e da passagem leve e inexorável do tempo – seta que teimosa é sempre para frente e sempre constante e invariável. Ahá! Eis aí um bom paradoxo. Haverá, nesse ambiente de emoções múltiplas e intensas, tanto sonatas e melodias caipiras, algumas em ode a certos causos desajuizados e que podem facilmente servir de carapuça ao mais desavisado: “Cabeça que não tem juízo, o corpo paga...”; como riffs de Jimi e “Gimme back my bullets” e “Well I’ve been down so God damn low”; com os exaltados Buendías clamando “ahuuuuu texugão!” e outros impropérios a semelhança daqueles brados do dadivoso Rei Davi; com os passionais Tenenbaums marulhando em suas confusões inocentes e recorrentes, tudo em nome de sua idiossincrasia irreplicável de um Tio Vânia. Ora, famílias são incubadoras, são aceleradoras de partículas, de modo que haverá também tardes nas represas e nas quedas d’água das Minas Gerais. Haverá noites enluaradas e haverá noitadas regadas à folia e bom humor. Haverá falta e haverá excesso. Haverá prosas encantadoras e haverá belos conselhos, como haverá regateios infelizes e diz-que-me-disse e haverá de tudo e de todos os lados nessa bela multiplicação da espécie; posto que comparações são odiosas – como diriam Cervantes e Kerouac. E como são dois os ouvidos: escutai, oh filhos de seus Destinos! Escutai e dizei ao menos a metade do que escutas, na proporção dos Dons que lhe foram sugeridos. E dizei palavras boas para que boas sejam as colheitas e as promessas e tudo aquilo que te regressa no amor que pelo outro também nutre. Aleluia! Sarava! Salamaleico, irmãos. “Sois igualmente vazios; igualmente a serem amados; igualmente budas que estão por vir” – como prega a boa pérola zen. Amém!

sábado, 5 de janeiro de 2013

Ditos

Se seu tivesse 20 ou 40, não estaria nem aí,

mas hoje cabe, ah se cabe....

"Envelhecer é inexorável, ficar velho é opcional..."

Gosto desta também,

"Deixa arder..."

Para mim o autor dessa é o Betão. Deixa arder... Equivalente ao foda-se? Vontade de deixar que tudo se exploda, se foda...Se arda?

Essa fez parte de minha vida:

"Passarinho que acompanha morcego, amanhece de cabeça para baixo...".

Já fui passarinho e já fui morcego e até hoje não sei que sou. Talvez morcego, talvez...

Educação. Papai me ensinou, educação com dois S's:

"Severo e suave...".

Mais uma de meu pai:

"Seja educado, mas não seja frouxo...".

Nem sempre educado, nem sempre suficientemente forte, mas nunca frouxo. Quem se acovarda tem a bosta da vaca como travesseiro.

"Cochila não, o cachimbo cai e você não sabe o que vem por traz.".

Sei lá quem disse isso. Eu não...Fiquem quem disse e quem ouviu, em paz.

Uma de mamãe:

"Tropeçar, todos tropecam. Mas, por favor, nao tropecem num cascalho...".

Estou aqui, fazendo de um tudo para ser maior do que os cascalhos.

E é assim, digam outras quem tiver mais...


sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Se é que há depois...



Vamos fazer o seguinte:
Não peças mais por mim.
Já passei da idade
de disputar tudo e tanto assim.

Saúde?
De aqui para frente,
eu sei e tu sabes,
será sempre assim:
Um dia mal,
outro melhor,
outro menos pior...

Portanto, não te preocupes,
hoje estou ótimo,
e, se não estivesse,
não estaria escrevendo
o que agora escrevo,
portanto, sem desespero...

Nada a preocupar.

Tudo bem.
Se insistes em por mim pedir,
peças, então, que eu morra bem,
que seja doce meu fim,
sem que ninguém me maltrate
e sem que a ninguém eu maltrate,
nem fisíca, nem moralmente.

Se queres pedir, tudo bem,
peças então,
que me vejam com o coração,
que me vejam, quem me ama,
eu lá em minha moribunda cama
me divertindo, sabendo que vou
desta para melhor
sem deixar irreparável dor,
mesmo porque nao existe
irreparável dor.

Atentes pois, que
se é inevitável morrer
- e é bom que seja inevitável morrer,
e melhor ainda é que eu saiba disso... -
peças que eu vá feliz
acreditando que vivi
e que a fiz viver
e, principalmente, que a fiz feliz.

Ore agora,
por hora,
é tudo que  basta,
se é suficiente, saberemos depois,
se é que haverá depois...


***

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Maiadô(campeio).

Maiadô
chão pisado
e mijado
cheiro de boi

No alto da serrota
capim nativo
madrugada

Não tinha mais boi ali
serração
relva serenada
ar frio nos pulmões

Vida- viver

Maiadô
vista turva
neblina
fumaça pela narina

Cheiro de flor madrugadeira
mujido longinquo
sede ao longe

Casa grande
cantar do galo
cheiro de café fresco
fumaça na chaminé

Vida -viver


Viver bão é simples


sábado, 15 de dezembro de 2012

Compromisso


Minha amiga,
não quero de ti
mais do que um olhar,
um olhar que me diga
e me comprometa.

Minha amiga,
não quero de ti
mais do que um olhar,
apenas um olhar,
e um compromisso
de vida inteira..

Apenas isso!

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Feliz desaniversário, papai...


Quantos anos faria hoje o meu pai? Não importa, a eternidade é imensurável! Assim como essa saudade!

Feliz desaniversário,nosso muito amado!


***

sábado, 8 de dezembro de 2012

Registrando Historinhas (I)



Foi em 1968. Eu tinha dezoito e ela treze.

Não falando de antes (Imaginem eu falar de uma menininha de nove anos por quem um cara de quatorze se apaixonou?!). Pois então, na época, eu morava na MAGACITA, uma república meio que no subúrbio de BH, no Calafate e ela em Volta Redonda, no Rio de Janeiro, chique demais.

Esta baixinha foi visitar a vovó em BH e eu fui, a pé, desde o Calafate até a Rua Rio Janeiro, quase divisa com a Contorno, a encontrar.

Foi numa quinta-feira.

No sábado eu estava no Mineirão prestando vestibular.

Ela já havia voltado para o Rio.

Chapelão na cabeça, barbudo e nervoso, segurava um “anel” que havia roubado dela... E então saiu dos alto-falantes do estádio: “Sugar-Sugar” (The Archies). Arrepiou corpo e alma inteira..

“Sugar!”... Meu doce, meu amor, desde ontem , até hoje e para sempre.... Amo você!

Segue o link:

http://www.youtube.com/watch?gl=BR&hl=pt&v=0MiQzAo6Cp8http://www.youtube.com/watch?gl=BR&hl=pt&v=0MiQzAo6Cp8





sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Fantasias



Divertia-se catando sonhos
no atalho por onde seguia.

“Eita, mas que diacho!
Sonhos são sempre sonhos
e não se espalham por caminhos!”

Ralhou deus, seu paizinho.

Fez que não ouviu.
E abaixando-se,
catou um cascalho de fantasia.

“Tamanha idiotice:
Coração cheio e barriga vazia!”.

Divertiu-se,
até se riu...

Não estou nem aí!
No meu bolso direito
tenho sonhos.
No esquerdo, fantasias
e no peito paixão.

Dispute, razão!

***

Escuridão




Feito nada
– nem merda era –
desceu estrada,
rolou ladeira abaixo,
como enxurrada...

Espumou na calçada,
clamou por deus,
por mais uma pedra...

Já era!

Foram-se os seus.

Adeus!

(Foto capturada na internet sem designação de crédito)

***

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Mensalistas


Comunista,
já fui comunista,
já estive na lista,
como outros companheiros mais,
tinha lá meus ideais.

Nunca pensei,
ou antes não pensava meu coração,
que idealistas da revolução
sucumbiriam ao "mensalão".

Que decepção!

***


quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Atormentando.


Me atormenta,
não estar atormentado.

É vida que segue,
está tudo errado,
não há quem negue,
e é vida que segue,
e ninguém ai,
e eu nem ai!

Me atormenta,
não estar atormentado.

Rolam crianças esgoto abaixo,
é um esculacho,
acendem velas por mortos, acendem,
pelos deuses que ascendem,
acendem,
e ninguém nem aí,
e eu nem aí.

Me atormenta,
Não estar atormentado.

A doideira dos viciados no crack
eu driblo vendo meu craque
fazendo gol, ele arrasa,
e a Gol que sempre atrasa,
não atrasou
e eu perdi meu vôo,
enquanto ele voou,
pra sempre voou.

Me atormenta,
não estar atormentado.

"Tá lá o corpo estendido no chão..."!
e gente tomando pinga com limão,
quem cuida dessa jossa foi designado
pelo amigo canalha
do canalha deputado,
eleito por uma marmita,
um tijolo, uma telha, uma dentadura,
vida dura,
e uma colorida fita
do sr. do bom fim,
triste fim.

E ningúem nem ai
e eu nem ai.

Criar cobra para o picar?
Educar? Ah, educar...
nunca não,
pro povo, circo e pão,
demagogia em abundância,
luz do sol,
um presente, um estádio de futebol,
com dinheiro de quem o elegeu,
basta, meu deus,
uma mentira aqui, outra alí,
empatia, graça, circo e pão...
E ninguém nem aí
e eu nem ai.

Me atormenta,
ah, como atormenta!
Eu não estar

atormentando!



quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Quigentésimo


500º


Não sei se vocês repararam, mas o post - DELÍRIOS - foi o quizentésimo POST PUBLICADO no nosso  Blog "OS FERREIRA"!!!

Merece comemoração?

***

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Delírios




Se deliro,
sou um livro
que não diz a que veio,
vísceras expostas
ao desinteresse alheio.

Entrementes,
o delirar é escasso
e assim, no habitual,
eu bem passo
como um ser normal.


***