sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Bené


Aí está mais uma estorinha...é claro que vocês a conhecem,porém essa é a minha criação dos fatos...liberdades, supostamente literária.
"Maria sentiu-se aliviada, o ar chegava-lhe aos pulmões. E os pensamentos voltavam-lhe à mente. Escutou o azulão cantando na cozinha, estranho pássaro que canta noite adentro.Seria um presságio?Ou,quem sabe,seria apenas música etérea?Gorjeios... Seria ela levada por uma sinfonia de... Sinfonia de pardais anunciando o amanhecer...
-Tem alvorada, tem passarada, alvorecer...E o morro inteiro ao fim do dia reza uma prece ave-maria - cantava docemente a mãe, enquanto abria as enormes janelas da casa da fazenda, deixando entrar o cheiro gostoso do eucalipto, os sons dos animais, as vozes das empregadas e da criançada, já na horta.Suas mãos delicadas agilizavam o dia e prometiam para a dureza deste um pouco de poesia.
- Mãe, olha a manga que apanhei pra senhora. Estava lá na pontinha do galho.Apanhei sem deixar cair – gritou afogueado Benedito.
- Que beleza, filho, vou chupá-la escondidinha – brincou a mãe.
Benedito era o irmão do meio, a euforia da casa. Menino forte, expedito (gostava da palavra pelo trocadilho), levado da breca, sedutor...De todos conseguia perdão. Tinha um jeito tão manhoso de se fazer perdoado que a gente da casa ia assim, perdoando, sem saber que o fazia. Adorava a mãe e era para ela que trazia a manga mais gostosa, a flor mais cheirosa, o agrado mais delicado. A mãe era, para ele, uma espécie de guardiã. Quando Benedito caprichava na bagunça e o pai colérico queria lhe arrancar o couro, era mãe que, afobada, desviava o encontro fatídico entre pai e filho.
- Bené, que horas você vai estudar para prova ? - perguntou a mãe preocupada e já sabendo que uma desculpa espirituosa sairia daquele riso matreiro
- Depois, depois mãezinha. Hoje estou atarefado.Pai me mandô ir na estação trazê açúcar.Sou, nessa casa, pau pra toda obra. Não vê minha batata. Sou Tarzan, só falta a Chita –brincou -A senhora quer alguma coisa? Pega o embornal para mim, mãe. Pai já tá dando aquele assobio de arrepiá os cabelo - sussurrou o menino.
-Olha como fala ,menino. Olha que falta faz o estudo -repreendeu a mãe.
- Não vai fazê pra mim. Vou ficá rico, vou ser fazendeirão que nem Custódio. Metido, vou ser. De cavalo bom, camionete Tesoto e curral cheio, tudo gado holandês.
- Seu avô tinha tudo isso – lamentou a mãe e pôs um olhar tão saudoso para o lado do curral que fez o coração de Bené apertar.
- Seu filho vai ter tudo isso e você mãezinha vai ficar importante, tão importante como Vó Chichica, cheia de nove horas.
- Não implica com sua avó – censurou.
- É sua mãe, é verdade, mas não é à toa que Maria chama ela de vovó pimenta – retrucou Bené já correndo para o porão de arreio.
- Olha o português -corrigiu a mãe - Maria...Essa menina está voluntariosa que só... E seu pai dá muita trela...resmungou.
Bené já não mais ouvia. Montado no cavalo, cheio de pose, lá ia galopando rumo à estação de trem. Maria o viu de longe. Admirava o indômito irmão, a abarbarada criatura. Nada conseguia detê-lo, também ela ambicionava aquela agilidade, a alegria valente de quem se deixa levar pela vida...
Mas ...Bené demorou na venda da estação. O dia findando e, o moçoilo não voltava. Pai e mãe olhavam aflitos a estrada...Nem sombra do cavalo e seu cavaleiro errante; a criançada pelos cantos confabulava imaginando onde se metera Bené. Alguma ele estava aprontando, não havia dúvida. O primogênito, na responsabilidade que lhe conferia a posição, já se preparava para sair em busca do menino capeta, quando se ouviu um corre-corre, um Deus nos acuda, um Virge Maria valei-me, na cozinha.
- Nossa Senhora, Bené se pegou com o filho da Rola no corguinho de baixo, deu uma surra no coitado que ele ficou lá, estirado na água. Dorgino quer matar Bené, diz que fio de patrão nenhum faz isso com fio dele -falava apressadamente Maria Caetana às outras empregadas.
- São Benedito, nos acuda! E o mantimento que vinha da venda? - perguntou Divina não aguentando de curiosidade.- Bené, ah menino danado!
- O saco de açúcar caiu no corgo...Hoje peixe vai comer doce -riu gostoso a cozinheira.
- Corre Divina, cerca Bené! Manda-o vir pelo portão da horta que o pai está bufando no alpendre. Vai acabar com ele –alardeava a mãe, já se colocando na defensiva.
Porém, antes que a empregada tomasse qualquer iniciativa, a mãe desceu as escadas em disparada ao encontro do filho, mas ao vê-lo molhado, rasgado, segurando o saco de açúcar vazio, o olho roxo e aquele risinho safado:
- Não disse, mãe, que comigo ninguém pode. Moí o valentão - falou entre dentes Bené.
- Ninguém pode, não é Benedito? –gritou mãe e foi ligeira, tremendo, tirando o chinelo do pé que dançou bonito, ritmado na bunda do menino.
- Ai! Ai! Ai!-pulava Bené na cadência da batida.
Da varanda, as empregadas viam o pandepá, a pândega, o pandemônio...Tonho varrendo o terreiro, segurava o riso. Divina, doutora em Bené,sussurrou ao pé do ouvido de Maria Caetana:
- Garanto que comadi Rola tá no meio. Querdita que o capeta tá fingindo que dói. Chinelo de pano...-tampou a boca para a risada não escapar.
Bené esperou a mãe se acalmar e saiu de fininho, de cabeça baixa; muito sentido até sumir de vista da raiva materna. Depois, soltou larga a sua risada...Estava meio estropiado, pois sim; mas deu uma lição no outro e além, a Rola valia a pena...Mulata cheia de curvas e reentrâncias...Era mulher de Dorgino, mãe do mulatinho metido a invocado, mas, engraçara-se pro lado dele e as reentrâncias pediam um homem de conhecimento e esse, pois não; era ele. A coisa ia ficar feia. O chinelo de pano da mãe amaciara as nádegas para a correia do pai. Dorgino jurara não respeitar o fio do patrão e da novena ele não sabia a metade.Ah Rola, Rolinha do meu coração.
Sempre em busca das últimas, a noticiosa Francisca veio vindo em auxílio do irmão:
- Bené, pai está andando de um lado para o outro, só esperando você cansar de se esconder. Dorgino já veio falar com pai e pediu as contas, mas te jurou de morte. Só ouvi pai dizendo que nessas terras não tem assassino e que todo corno que se preze vai esconder sua vergonha em outras paragens.
- Me lasquei Esse camarada faz falta.Como pai sabia do achego? – ajuizou - Nem Dorgino sabia, só o filho dele.Desgraçado, viu o que não era pro seu bico. Rola vai se embora?
-Tem vergonha, não? Olha a confusão. Divina, com ciúme, acabou dando com a língua nos dentes. Vem, vamos entrar. Mãe está se remoendo de remorso. Está apavorada com essa história toda.Você diz pro pai que não foi culpa sua, que Rola é assanhada, coisas de homem...Vocês se entendem.
Devagarzinho, tímida, amedrontada, Maria foi se aproximando.Também ela queria se fazer necessária, também ela queria mostrar sua preocupação com Bené. E mal tocou no ombro de Francisca, e já os dois em uníssono gritaram:
- Vai embora daqui, Repórter Esso. Já contou pro pai, não é sua linguaruda?
Maria ia responder, quando ouviu o som da correia deslizando entre os prendedores, virou e viu a figura enorme do pai que vinha em passos largos para cima de Bené.
-Não pai, não...-murmurou o menino
-Pai, não é culpa dele, foi a Rola...-gemia Francisca.
-Desapareçam, meninas!...Isso não é coisa para vocês.
As duas apavoradas, saíram correndo.Mortificadas, ouviram as correiadas estalando no corpo rijo de Bené. O menino não chorava, nem um gemido soltava...Orgulhoso esse filho de meu pai. Maria ainda o olhou uma vez mais.Ajoelhado, encolhido em si mesmo, recebia o couro paterno, mas Maria viu seus olhos encarnados e esses prometiam vingança:
-Francisca, acredite, não fui eu que contei pro pai onde estava o Bené. Apenas adivinhei e papai me seguiu-explicou a menina
-Retardada, nunca pensa antes de agir. Você me paga Maria! Coitado do Bené, pai vai esfolar o lombo dele. Você me paga...-grunhia a irmã.
Humilhada, Maria se afastou. Era uma desastrada. Não queria aquela violência. Pai sabia ser bravo, enérgico, quando era preciso. E ademais, Bené era impossível. Parecia que o irmão gostava de provocar pai, sempre o desafiando, medindo forças. E agora o camarada Dorgino ia embora.Ia fazer falta, meu Deus!Coitado do pai, coitado do Bené...Coitadinha de mim..."

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

A vida tá ficando muito chata


De repente – Aliás, nem tão de repente assim! – o Estado decidiu que somos todos inaptos física e mentalmente para governar nossas vidas e resolveu nos tutelar como se todos tivéssemos sido vítimas de súbita e aviltante regressão, a qual nos conduziu à tenra idade de um bebê mal começando a engatinhar e que requer toda atenção e cuidados pra que não se estrepe.

Pior: Talvez inspirada no atrevimento governamental, a sociedade também resolveu tutelar o individuo, parindo, aos montes, os politicamente corretos, os eco-chatos, os ratos-de-academia, os ultra-hiper-vigilantes-do-peso, os amigos do coração, do fígado, dos rins, dos intestinos, da próstata e, quiçá, do ânus... Para cada célula humana, desde a primeira papila gustativa da pontinha da língua, até a última ruga do cê-sabe-do-que-tô-falando (será que, com a nova reforma ortográfica, todos esses hífens seriam admitidos?) existe um chato, uma ONG, quiçá uma OSCIP, a se preocupar com o seu (da célula humana) bem estar.
E a vida foi se ficando chata, chata, chata... Cada vez mais chata.

Antes – pelo menos no meu tempo – o rebu seria armado se um baseadinho fosse apertado e aceso, hoje o bicho tá é pegando para um inofensivo caretinha, um Hollywood qualquer da vida...

O governo restringiu, a sociedade digeriu e o pobre fumante foi, progressivamente, transmutado de elegante, charmoso e poderoso (Like Clark Gable) para indiferenciado, inconveniente, discriminado e... Pasmem, criminoso! (Laique Comedor de Criancinhas). Exagero? Exagero nenhum. Agora qualquer um, ainda que esteja a quilômetros de distância de um fumista, se sente no direito de se auto promover a “fumante passivo”.

Podes crer, amiguinhos: Trata-se sim de promoção, de elevação de status!

Vira e mexe ocorre um ferrenho embate (Um duelo; Tema: "O dólar Furado" ou "O bom, o mau e o feio"): Fumante Passivo versus Pacato Fumante e, usualmente, o Fumante Passivo sai vitorioso, porque, via de regra, Fumante Pacato tem mais educação e comedimento.

Fumante Passivo, que bonito!

- Kct, deixem-me alimentar meu futuro câncerzinho em paz!

E tá lá o Senhor Fumante Passivo, empertigado, poderoso, cheio de empáfia:

- Garçom! Aquele parvo está com explicitas intenções de me assassinar... Aguardo enérgicas providências.

Um parêntesis: Não sou fumante discursando em causa própria.

Mas não é só isso... Não. A amolação vai muito além!

Experimente saborear uma picanha com uma bela capa de gordura (que seja um dedinho apenas), um chouriço (aquele de sangue de porco e tripa do intestino grosso – do porco, é claro!), um inocente torresminho... Tá bom, peguei pesado. Mas que tal uma suculenta “macarronada da Mama”?

Não tenham dúvidas. Como se em permanente guarda, surge, prontamente e do nada, o batalhão dos defensores da saúde alheia.

- Hã...hã! Tá boa essa carninha, né? Seu coração agradece...

Haja paciência! Minha alma, infinitamente mais sincera, agradece muito mais, pombas!

E os ratos-de-academia? Arrasam, com um olhar pra lá de maligno, qual o do Vampiro Brasileiro de Chico Anísio, com aquele que optou por sentar placidamente num banco da praça e tomar seu chopinho enquanto lê no jornal as notícias de seu time do coração.

- Sedentário! – Exclamam com desdém, ao passarem correndo... O sovaco despejando bicas de suor.

Haja saco! Quem tem que correr é o centro-avante de meu time, pombas (de novo)! E, uma vez mais, como faz bem para meu espírito, ficar aqui, sentadinho, sob um lindo sol de domingo, observando apenas as flores e os passarinhos (liricamente)!

“! Si hay gobierno, soy contra!” – Dizem sabiamente os espanhóis... Entendendo por “gobierno” qualquer tipo de mando, velado ou explícito, estou com os “hermanos españoles”. Por convicção de infância, sou frontalmente contra a qualquer forma de autoritarismo: Governamental, paternal, matrimonial, filial, social e etc e tal...

Mas, sinceramente, reconheço o direito de todos “os hifados” acima. Eles que busquem sua turma, se reúnam em frente a uma salada de rúcula orgânica, acompanhada de suco de graviola e, como sobremesa, açaí com guaraná, enquanto discursam sobre o tema politicamente-correto-do-dia... Que maravilha!

Eita vidinha que ta ficando cada vez mais besta, sô!

terça-feira, 11 de agosto de 2009

O Peido

Esse blog tem andado muito intelectual!

Pudera! Tendo como autores pessoas do calibre de minha irmã Cocada, de meu irmão Tarlei e de meu sobrinho Thiago (Rose e Dado não listo, porque ainda não publicaram) que eu poderia esperar?

Mas só para quebrar o clima, resolvi esculhambar com estes versos um tanto, digamos, inusitados.


O PEIDO

Fazenda da Guanabara, 11 de outubro de 2005.

Ninguem educado faz.
Mas que é bom é... E faz feliz.
Tirar uma meleca encravada no nariz.
Vem bem, muito bem, lá de traz.
Um arrepio folgado na nuca, gostoso,
- É quase um gozo -
E uma vontade louca,
Mais do que de mais, de espirrar...

E arrotar? Uma das melhores grosserias.
Depois de uma, duas, três... cervejas
Em qualquer mesa, ninguém quer que seja,
Deveria se privar de tal alegria
E um arroto conter.

Existe coisa mais boa?
Há quem diga que não, há quem diga que sim.
Eu aqui, sossegado e atoa,
Digo, sem pretender dar à polêmica um fim,
Que o bom, que o melhor mesmo, é peidar.

Peido contido, assoviado e fino,
Que vaza, avexado, assim meio sem querer.
Esse fede mais do que o destino,
E faz qualquer um se arrepender.

Peido amarrado, sem graça e chocho,
Esse não causa impacto , é quase só ar,
Como aquele que soltou o bom moço
Que, coitado, até pensava em se casar.

Mas peido bom, peido de fato, sensacional!
É o liberado das tripas sem nenhuma contrição.
Sonoro. Preciso... Não, esse não cheira mal.
Mas é uma porqueira danada, uma beleza de explosão.

Ninguém ensina isso para um filho,
E faz muito bem, que educação vem mesmo do berço,
Mas o fato é que a vida sem deslizes não tem brilho,
E tem se tornado, sob tutela, cada vez mais chata,
Reserve, então, uma parte da sua, pelo menos um terço,
Para fazer tudo aquilo que não se deve propalar.
Incluindo, é claro, peidar!

Um dia de Fúria

O temperamento indócil, o ritmo frenético, a gana por atingir seus objetivos em curtíssimo espaço de tempo e a incômoda e persistente falta de dinheiro, fizeram de nosso pai um homem de humor extremamente instável, oscilando, no milésimo de segundo da explosão de um flash, entre o de um pacato bichano a ronronar inofensivo ao do de um assustador leão a rugir enfurecido. Houvesse um psicólogo por perto e seria dito tratar-se de um comportamento bi-polar... Bobagem! Papai era na verdade um homem de “estopim curto”, muito curto...

Esse caráter explosivo foi o motor de vários súbitos surtos de fúria que, tão logo debelados, se transformavam em motivos para profundo arrependimento ou para boas risadas, dependendo de como o pós-surto fosse tratado por Dona Lilia.

Lembro-me de alguns deles: A batalha do trem; Passarinho, o retireiro bêbado; O leite derramado (que não se trata do livro de Chico Buarque); Confronto na roleta da estação... São alguns que me ocorrem agora.

Pretendo registrar neste blog aqueles dos quais me recordo bem, usando o máximo da memória e um pouco da imaginação quando necessário.

Se alguém se lembrar de mais detalhes dos que publico ou mesmo de outros, por favor, me corrijam ou publiquem os seus.

A banda de porco

Como era comum, papai tinha com Dorgino um capadinho criado “a meia”. Para os não tão caipiras, explico: Capadinho é um leitão castrado levado à ceva para recria e engorda e posterior abate; e “a meia” é uma forma de repartir custos e resultados em um empreendimento qualquer que, no caso, consistiu de ter nosso pai fornecido o leitão capado - cria de seu mangueiro - cabendo ao Dorgino, empregado na fazenda, arcar com os custos da recria e engorda.

A bem da verdade, essa modalidade de negócio interessava mais ao meeiro que trataria da recria e engorda e, por isso mesmo, papai sempre reivindicava para si algumas prerrogativas como, por exemplo, decidir pelo dia do abate segundo sua (leia-se de Dona Lilia) conveniência.

Passado algum tempo e tendo o bicho já dado fim em umas tantas quartas de milho, outras quantas de fubá e muita abóbora madura, de tão gordo que estava mal andava e Dorgino, lambendo os beiços só em pensar nas suculentas suãs que derivariam do suino, vinha humildemente insinuando para nosso pai que estava já passando da hora de fazer o torresmo, com o que papai até concordava.

Ocorre que Sá Eurides (Eurídice?) encontrava-se adoentada – espinhela caída – e mamãe, nem que a vaca tossisse, se arriscaria na empreitada de preparar o porco, ainda que fosse apenas uma banda (de novo, para os menos caipiras: Uma banda é a metade do porco que cabia a cada meeiro), sem a ajuda dela, por isso papai vinha sistematicamente postergando o abate.

Num domingo, por volta das dez horas da manhã, estávamos todos no alpendre, quando papai avistou o Dorgino, ainda lá do outro lado do corguinho, vindo na direção da sede... No ombro, a banda de porco pendurada.

- Aquele merda matou o porco! – Exclamou ele, surpreendido com tamanha ousadia e antecipando o que ouviria de reclamações, partiu chispado, cospindo fogo, ao encontro do camarada.

Julho, tempo seco, estrada poeirenta... O embate se deu ainda do outro lado do corguinho, logo após a primeira curva, em seguida a casa do Passarinho. Do alto de uma paineira que margeava a estrada, da porta de sua casa, apenas um joão-de-barro, acompanhou atônito o desenrolar do evento: A poeira subiu, a banda de porco desprendeu-se do ombro de um apavorado colono, indo parar no pasto ressequido, Dorgino, cara suja de pó, fez meia-volta e se mandou ligeiro, após o safanão, felizmente sem ser perseguido por papai... Mais não foi visto e tão-pouco ouvido. Não pelo joão-de-barro que agora já se ocupava novamente com sua casa.

Papai veio bufando... Assim que a porteira do eucalipto bateu e antes que o tempo esquentasse também para nosso lado, tratamos de escafeder-nos rumo ao pomar e quando os passos duros de papai ecoaram no assoalho de tábua corrida da sala, o último de nós já havia vazado pela porta da cozinha.

- Lilia... Lilia! – Gritava ele em busca de mamãe que, nessa altura dos acontecimentos, tinha se trancado no banheiro.

Do desfecho da história, sinceramente, não me lembro.

Como o porco não poderia ser reconstituído e tão-pouco ser ressuscitado, não sei se a banda voadora acabou sendo trazida para nossa casa, se o Dorgino ficou com as duas partes ou se a que foi parar no mato acabou por virar comida para os urubus... Sei que Dorgino continuou trabalhando normalmente na fazenda, ainda por muitos anos e que outros capadinhos foram dados à meia ao próprio Dorgino e a outros empregados de papai, sem que novos incidentes de maior gravidade ocorressem.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Canção

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
-depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito:
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

Cecília Meireles

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Enfim o correspondente de Goiás

Finalmente o maninho Tarlei aceitou meu convite e aqui está na qualidade de correspondente de Os Ferreira, no Estado de Goiás.
Bem-vindo!
Agora é só nos brindar (com grande frequencia, espero) com seus belos versos, textos, notas, notícias...

domingo, 2 de agosto de 2009

Saudades

Minha querida irmã,sou um felizardo por poder participar deste blogger,descobri num rascunho uma preciosidade(Benedito e Maria)

Beijo

Tarlei



Saudades


sal da idade
prazer
de quem não tem prazer
olhos marejados
mortiços
vendo o passado
jovem e alegre
não compreendendo
a solidão presente
a força ausente


Vejo tempos idos
com clareza
como vê seu algoz
um ferido
parece que a fumaça
a neblina
me embaralha
a mente
não consigo pensar
só lembrar

sábado, 25 de julho de 2009

Causos de Milton Ferreira (Tela Azul)

Papai tinha o sonho de ser um grande produtor de café (além de grande produtor de leite, de milho, de feijão... E talvez de tudo o que pudesse ser produzido naquelas férteis terras da Fazenda dos Coelhos, na Estação de Paulo Freitas, no Município de Itutinga, MG.) e, para isso, sem medir esforços, deu vazão ao seu instinto empreendedor, ousado e pioneiro, com impressionante ímpeto, como se entre o curto espaço de tempo transcorrido entre cada nascer e por de sol dez anos transcorreriam.

Assim, rapidamente a bela Fazenda dos Coelhos se transformava ao sabor de seu apetite empreendedor e, não necessariamente nesta ordem, obras se sucederam: A sede foi reformada, a fábrica de queijos construída, o rancho, a cocheira e o curral, o tanque de banhar gado, silos trincheira e em alvenaria, casas de colono, o paiol, o galinheiro, o chiqueiro e, bem em frente à sede, três grandes “terreiros de café” – terreirões – sendo um, o mais próximo da cocheira, em pedra (lajes) e cimento, o segundo totalmente com cimento e o terceiro em terra batida. Na frente dos dois primeiros, o de pedra e o de cimento, foi estendida uma tela em arame galvanizado, para evitar a entrada de animais, especialmente os cavalos que comumente eram deixados a pastar na grama que os margeava.

Caprichoso, papai se deu ao trabalho de pintar a tela na cor azul...

Pouca ou nenhuma diferença fez!

Ninguém percebia que a tela havia sido pintada e foi isso que o Édno, um sobrinho por quem papai tinha especial apreço e que era um grande gozador, passando férias por lá, ironicamente comentou.

Percebendo que papai havia ficado aborrecido, para amenizar, ele se justificou: "Depois que se comenta, a gente até percebe a cor azul.”.

Papai ouviu e nada disse.

Dias depois, penduradas ao longo da cerca, havia placas nas quais se lia:

TELA AZUL...

Problema resolvido!

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Missifufi



A pedido do dono do blog, aí está um fragmento de uma história que já tem ,creio que,cinquenta páginas...história abandonada.Não era assim tão boa.

Chegando em casa, as irmãs entraram pelo portão lateral, de cima Nas pedras Luminárias, luz e sombra brincavam num emaranhado louco. Naquele ponto em que nada se define, mas que tanto seduz, Maria chorou uma lágrima que rapidamente secou no calor do mármore. Há gente na varanda. O pai, atento, vê o abatimento da filha e num gesto tresloucado, estúpido, de brincadeira, atiça o cão Bandoleiro no gato Missifufi.Meu Deus, agora não! Os pelos do felino eriçados, os olhos buscando fuga, esconderijo...O embaixo-do-tanque,logo ali... Rosnar ruidoso rasgando rude o resto do dia; miados estridentes, lancinantes dilacerando a entrada da noite...Tudo no embaixo-do-tanque...Tentativa em vão de socorro, perplexidade, desespero e os olhos tão embaçados da incompreensão viram o gato, gatinho, nhonhento, amado, macio sair. Nossa Senhora, arrastando as patinhas traseiras, caminhando bêbado, não entendendo nada do ser meio-gato...Sete vidas? Sete mortes! Maria olha o pai, a tristeza grita, o eco imita...Leva ela prá -lá! Vai ter que sacrificá! Toma esse copo d’água com açúcar! Sai! Pai berra em desespero: SAI! Passarinho.Missifufi.O pai...Sal, açúcar, luto, medo, abandono... O eu se encolhendo...E novamente o temporal desaba, a terra lança seu cheiro de cio, uma manga cai da mangueira, verde...Verde...Um som seco de porrete ecoa. O silêncio do gato, a tagarelice do camarada-cachaceiro... O mundo nos seus indefinidos contornos, na sua fatalidade, no seu sufrágio...A vida no seu deboche, no seu faz-de-conta de ser feliz.
- Filha, se acalme. Papai só quis te alegrar; ele, às vezes, é tão desastrado –consola a mãe, segurando o copo.
Mergulhar, mergulhar, mrgglhr, mr...Ar! Ar...Ar...

terça-feira, 21 de julho de 2009

Missifufi???



Essa foto é apenas para provacar a Cocada para que ela post aqui aquele texto!

Será que ela o fará?
Bem, eu nem sei escrever o nome do gato...

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Dando rasteira na tristeza


A primeira vez em que ouvi a expressão, não sei se cunhada por ele, foi numa conversa que tive, por telefone, com o Maia:

- E ai? Belezzz?

- Tocando a vida... Dando rasteira na tristeza...

Pego de surpresa pela frase, maravilhei-me com a sua força... “Dar rasteira na tristeza”, que coisa!

Talvez o meu deslumbramento tenha decorrido do fato de que, desde meninos, aprendemos a força de uma rasteira bem aplicada, quando, por um motivo qualquer, geralmente fútil, dois do grupo se engalfinhavam para resolver alguma pendenga antiga.

- Dá uma rasteira nele! – Instigava a turba que prontamente se aglomerava em volta dos contendedores. Uníssonos, embora cada um dirigisse o incitamento ao opositor de sua preferência.

- Dá uma rasteira nele!

E se assim acontecia, era a simultaneidade do apogeu e da derrocada.

Então eu imaginei a tristeza, após uma bela rasteira, estendida no chão – a testa suada, a cara suja, os olhos arregalados, admirada com o desfecho dos acontecimentos – e o regozijo daquele, a quem ela tentara subjugar e que a surpreendera com tão admirável golpe.

Dando rasteira na tristeza!

Mas poderia também ser em razão do sentido que assume a palavra rasteira no mundo corporativo: Enganar, levar vantagem, ludibriar... Sendo que, neste caso, a beleza seria encontrada no fato de se ter rasteirado uma safada... No caso, a tristeza.

Então é isso.

Neste final de semana, vamos todos dar uma rasteira na tristeza.

Bom final de semana Ferreirada.

Mãos de Lavrador

Mais um post que garimpo nos comentários. Esse veio de um anônimo (devidamente não identificado). Mas como - creio eu - já sou capaz de identificar os estílos da Ferreirada, estou o creditando ao Thiago (mais um correspondente que não corresponde). Se errei, por favor, me corrijam.

O título foi sugerido por mim... Se o autor não gostar (o que acho bastante provável) me avise que o retiro ou coloco o título que ele julgar adequado.

Sugiro a Cocada que transfira seu comentário para este post.


(Quanto pretensão minha por julgar-me conhecedor do "estilo da Ferreirada", não bati nem na trave! Com a correção apontada por Cocada, registro agora o crédito do belíssimo poema para nosso querido irmão Tarlei).

Fica assim, então:


Mãos de Lavrador
(título provisório)
Tarlei

Cabeça miúda
de crina pouca
branca e esvoaçante
lábios finos
e apertados
compleição modesta
mas férrea
as mãos impressionam

Mãos nodosas
de grotas
e vertentes
Calosas
de sulcos
e vales

Mãos da terra
de sonhos
e de luta
lavradoras
de plantas
e regas

Mãos duras
de força
e garra
rústicas
de machucaduras
e cortes

Agora no peito
magras
descarnadas
silenciosas
pacatas
surdas.


sábado, 11 de julho de 2009

Morrinho


Estamos todos na cozinha, todos falam ao mesmo tempo de um tempo singular, um tempo só-ali...todos lembram das brincadeiras e aventuras de uma meninice ímpar...e naquela manhã, papai acordara ainda mais cedo, a lenha estralava nos seus joelhos, gemia no fogo; o cheiro bom de café e hortelã vestiu o ar e acordou toda a casa que neste dia subiria a serra

Testando

Acho que consegui popstar algo...bj a todos

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Roçada

Estes meus manos!

Agora é o meu correpondente para assuntos do Centro-Oeste que não consegue postar (aliás, nem se cadastrou como autor ou colaborador, não aceitando, assim, um dos inúmeros convites que lhe fiz... Tô mesmo mal arrumado!), daí tenho que ficar garimpando nos raros comentários um provável post, como este que encontrei de um tal "anônimo" (devidamente assinado pelo Tarlei).


ROÇADA
- Lembranças de Infância -
Tarlei

Saímos cedo
Não cedinho
Após a tirada do leite
Trato de porcos e galinhas.
Eu na garupa
Tentando não tagarelar
O pai estava sisudo
Melhor não amolar
No capim da beira do caminho
Ainda tinha orvalho
O que dava um tom prateado na relva
Com o lumiar do sol matutino
Avistei alguns passarinhos
Como o trinca ferro
E a arredia alma de gato
Que disfarçava na ramagem do esporão de galo
Nada comentei
Pois o velho continuava calado
Ouvi latidos
Logo apareceram cachorros magros:
Um amarelo e outro cinza.
Sai cachorro, vai deitar Leão
Fizeram com que deitassem, desconfiados em algum canto.
As cabaças com água embaixo das moitas de capim gordura
Os caldeirões de comida embrulhados em panos brancos muito limpos
dependurados em galhos fora do alcance dos cachorros
O cheiro marcante e gostoso do mato morrendo, o sibilar das foices
relampeando ao sol.
Chapéu na mão em sinal de respeito
- Bom dia.
- Como vai o serviço?
- Tem muito espinho, garrancho. O serviço não está rendendo.
- Aperta o passo. Se não vocês não tiram a tarefa combinada.
- Sim senhor.
Faz-se então a vistoria na área roçada.
Cuidado com as pontas de pau,
estrepe perigoso.
- Este pessoal é mole, está pegando o serviço tarde.
Toca o cavalo para o lado da sede.
Cara de poucos amigos.